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Sandra Kogut revela detalhes de ‘No Céu da Pátria Nesse Instante’ e anuncia continuação de ‘Três Verões’

Documentário teve sua estreia mundial no 56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Em uma conversa exclusiva, tive o privilégio de entrevistar a cineasta Sandra Kogut, responsável pelo marcante documentário “No Céu da Pátria Nesse Instante”. Durante a entrevista, Kogut compartilhou detalhes sobre a produção do filme, que mergulha nas águas turbulentas do processo eleitoral brasileiro, culminando na invasão do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, em 8 de janeiro de 2023.

Filmado durante todo o ano de 2022, o documentário “No Céu da Pátria Nesse Instante” estreou mundialmente no 56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 10 de dezembro. Através do olhar e da vivência de alguns personagens envolvidos no processo eleitoral, mergulhamos em um Brasil de tensão e expectativa, onde coexistem realidades paralelas que têm dificuldade de se enxergar mutuamente. Um registro de um momento na história do país em que a democracia esteve seriamente em jogo.

A diretora Sandra Kogut foi estimulada a realizar este documentário ao perceber a magnitude decisiva que os eventos teriam não apenas para o país, mas para as gerações futuras. Para ela, o cinema é sua forma de ver o mundo, e foi através dessa ferramenta que ela decidiu encarar esse período desafiador. “Quando vejo o filme, revivo muita coisa, como acho que isso vai acontecer com todo mundo. Vendo o filme, cada um vê também seu próprio filme que passa na cabeça. Fico feliz que tenha conseguido chegar ao final desse filme, que ele exista hoje e a gente possa mostrar”, disse Kogut.

Eu acredito que, para nós brasileiros que vivemos aquele período, o filme é uma oportunidade de revivermos as nossas experiências e emoções daquele ano.

A criação do filme exigiu uma reinvenção constante do processo de filmagem. Kogut acredita que cada filme tem sua própria essência, e, nesse caso, essa identidade foi mais intensa, demandando uma série de repensamentos e reajustes. “Eu resolvi fazer esse documentário porque sabia que o que aconteceria seria algo muito decisivo, não só para o país, como para todos nós”, conta ela. Inicialmente pensado como um olhar para o ano eleitoral, o filme se tornou mais do que apenas um registro das eleições; transformou-se em um retrato profundo do abismo do país, repleto de fake news, medo, tensão e incomunicabilidade.

“A uma certa altura, entendi que ele (o filme) realmente teria que ser sobre as eleições, porque inicialmente eu pensava em fazer um ano eleitoral para algumas pessoas”, revelou. “E aí, rapidamente, foi ficando claro para mim que não era exatamente um filme sobre as eleições, era sobre essas eleições e era principalmente sobre esse momento de abismo do país, de muita fake news, de muito medo, de muita tensão, de muita incomunicabilidade. Na verdade, o filme retrata esse momento”, completa a cineasta.

Durante as eleições, a ameaça ao sistema eleitoral brasileiro e às urnas eletrônicas tornou tudo mais desafiador, entretanto, essa adversidade abriu portas, permitindo acesso a personagens fundamentais para o processo eleitoral, como voluntários e trabalhadores diretamente envolvidos. A cineasta desejava capturar não apenas os protagonistas visíveis desse período, mas também aqueles que atuam nos bastidores, fornecendo uma visão rica e muitas vezes anônima desse momento crucial.

“Nessas eleições, como a gente viu, o processo eleitoral e as urnas eletrônicas, que é um sistema incrível, estava sendo muito ameaçado. O TSE percebeu que era importante mostrar como eles trabalham e isso também ajudou a gente a ter acesso a alguns personagens que estavam diretamente envolvidos com as eleições”, conta Sandra.

“Ao longo do filme, a gente até, inclusive, aprende coisas sobre o processo eleitoral que muitos de nós, tenho certeza, nem sabiam de como funciona. Eu também queria personagens que não necessariamente são aqueles que estão no centro dos holofotes nesse período eleitoral, mas que são fundamentais para o processo eleitoral (…) Esse é um trabalho que envolve muito voluntariado, tem muita gente servindo ao país, é muito bacana de você ver, muito bonito, emocionante, e eu acho que a gente tem que ser muito grato essas pessoas, porque se não fossem por elas, não sei onde a gente estaria hoje, porque essa foi uma eleição onde o que estava em jogo era a democracia”, expressou a diretora.

O processo de filmagem foi um verdadeiro desafio, já que as incertezas sobre o desenrolar dos eventos eram constantes. Kogut e sua equipe vivenciaram um presente perpetuamente caótico, onde as crises sucessivas obscureciam umas às outras, tornando difícil compreender e reter tudo o que estava acontecendo. “Às vezes eu pensava: ‘Coitados dos professores de história do futuro, que vão ter que explicar esse momento tão difícil de entender, até de acreditar que está acontecendo’”, falou. “Tinha muita coisa que a gente não tinha como prever. Era tudo tão rápido, tão intenso, que foi um processo: a medida em que a gente foi vivendo o filme, vivendo o que estava acontecendo, eu fui entendendo o próprio filme”, completou.

Foi um filme que, em vários níveis, estávamos o tempo todo repensando. Vamos filmar, vai ter a posse, vai ter um golpe. Eram muitos elementos, e o tempo todo estávamos pensando no que ia acontecer. Quando teve a posse, pareceu que as filmagens tinham se encerrado. Uma semana depois, veio o 8 de janeiro.

Kogut acredita que é essencial ver a democracia na prática. O filme busca retratar a construção, proteção e consolidação da democracia por meio do processo eleitoral, destacando o esforço coletivo para preservar o terreno comum do país. Sandra acredita que o cinema é uma poderosa ferramenta para compreender as emoções e o lado humano desses acontecimentos complexos.

Quando vemos pessoas levando urnas em barcos na Amazônia ou ensinando outras a usar o sistema eleitoral, independente de seu voto, é possível perceber como a democracia é construída, protegida e viabilizada. O cinema é uma ferramenta poderosa para nos ajudar a entender as coisas por dentro, pelas emoções e pelo lado humano. Ele nos apresenta realidades concretas que falam com a gente, dentro da gente.

O documentário, para ela, é um convite ao diálogo e à reflexão. Ele oferece a oportunidade de as pessoas se identificarem com diferentes personagens, reconhecendo suas próprias experiências e reavaliando questões cruciais para o país. “Eu queria trazer o filme para perto das pessoas. Como o documentário acompanha personagens de diferentes lugares do Brasil, com diferentes experiências, é natural que as pessoas se identifiquem com um ou outro personagem”, comentou.

O processo de filmagem foi longo e intenso, resultando em um material vasto e rico. Kogut, embora não tenha conseguido incorporar todo o material no filme, expressa o desejo de explorar outras possibilidades com ele e agradece à equipe e a todos os envolvidos no projeto.

“Conseguimos reunir um material riquíssimo, com personagens incríveis que não entraram no filme. Isso porque eu queria fazer um arquivo do presente, e um filme perto disso é uma coisa até pequena”, explicou. “Estou muito feliz por ter conseguido fazer esse filme. Estou orgulhosa do resultado e grata à equipe e a todos os envolvidos no projeto. Sem o apoio dessa rede de pessoas, o filme jamais teria sido realizado”, agradeceu Sandra Kogut.

‘Três Verões’ ou ‘Três Invernos?’ Eis a questão!

A cineasta Sandra Kogut, também revelou que atualmente trabalha em seu próximo filme, e está animada para dar continuidade à história de “Três Verões”. O filme original foi um sucesso de público e crítica, e o público pediu por uma continuação. Kogut começou a desenvolver a ideia de uma sequência depois de ouvir os pedidos. O novo filme, que ainda está em fase de desenvolvimento, irá explorar as trajetórias dos personagens em um contexto pós-eventos marcantes no Brasil.

“Estou trabalhando no meu próximo filme, que é uma continuação de ‘Três Verões’. Em minhas viagens, participei de debates sobre o filme e, muitas vezes, ouvi as pessoas na plateia pedirem por mais verões e invernos: ‘Ah! A gente quer mais verões, a gente quer mais invernos’. Achei graça no início, mas, um dia, pensei: ‘Nossa, eu também (quero)’. Foi assim que surgiu a ideia de fazer uma continuação do filme”, revelou a cineasta.

***O texto acima é de inteira responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal S4.

André Silva

Vencedor do Prêmio Themis de Jornalismo, sou formado em Comunicação pela Universidade Veiga de Almeida, jornalista apaixonado pela comunicação e fundador da Mala Cultural. Também atuo como assessor de imprensa, com ampla experiência em canais digitais. Com curso em Relações Internacionais pela FGV, possuo habilidades com espanhol, inglês e francês.

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